—Estranho, Betty: ela falava comigo, e olhava-me como se não me visse. Nem sequer entendi direito o que dizia - era como se um outro estivesse em meu lugar, ou ela conversasse com alguém que não fosse eu.
Tantos anos decorridos, e ainda hoje me assaltam dúvidas: teria ela realmente me amado, ou procuraria em mim apenas a reminiscência de alguém? Ah, o modo como me tateava às vezes, como se tentasse reconhecer por um sinal perdido a face amiga, as palavras que me dirigia nos momentos de entrega, e que eram restos de palavras, fins de frases que pertenciam não ao meu diálogo, mas ao diálogo interrompido com outro, sua insistência em certa espécie de carinhos, em certas expressões de amor que revelavam uma intimidade, um aprendizado adquirido com alguém que não era eu - e quem então, em que época? Que outro era esse, como vislumbra-lo através da discrição que ela mantinha sempre? Repito, até hoje não sei ao certo se foi a mim ou se foi a um espectro que ela amou [...]
Trecho dos Diários de André

milhões de comentários
Postar um comentário